O Segundo Comando da Capital ?

Dois mil e seis.

Noite calma no bairro do Tremembé, zona norte de São Paulo; A padaria que fica de esquina na praça Mariquinha Sciascia terminava de despejar seus últimos bêbados em mais um dia cansativo de trabalho – para a padaria, é claro.

A água amarelo-espumosa que vertia pela porta corrediça sobre os degraus do estabelecimento já era o sinal de fim de expediente.

- Esse cheiro de sabão com cerveja me dá ânsia – dizia seu Nemésio, que religiosamente fechava o local, não era o dono e sim um dos bêbados.

Já era Maio, e mal passara o décimo dia daquele mês, Sêo Nema, como é conhecido na Vila Rosa, onde trabalha em uma oficina de funilaria desde os primeiros anos da década de 80, já havia gasto quase todo o seu minguado salário em doses de maria-mole, rabo-de-galo e vermute seco, sistematicamente acompanhadas por maços e mais maços de cigarro Minister.

Cambaleante, levava consigo uma garrafa sem rótulo, cheia de cachaça, embrulhada em um dos pacotes de pão que havia surrupiado com o consentimento da balconista.

- Vai … leva Sêo Nemésio … leva …

Olhando meio de soslaio, ele sorri andando pra trás sem ver o degrau que traiçoeiramente se aproximava.

- Sêo Nemésio, meu Deusssss !

E todos correram para acudir pela enésima vez o pobre diabo, descabelado, com meia dentadura pra fora da boca, e o maço de cigarros pela metade, molhado a ponto de fazer um chá com o que escorria pela camisa que um dia fora branca.

Eliete, uma das atendentes daquele lugar  – a preferida do velho – o ajudou a se levantar, com a mesma delicadeza que fatiava a tão saborosa ‘mortandela’ que o acidentado tando lhe pedia fiado.

Ainda perturbado pelo tombo, mas bem recuperado das faculdades que lhe convinham, o pudim-de-pinga tentou alcançar o seio daquela morena soteropolitana, no mesmo momento em que ela o ajudava a se recompor.

- Olhe seu véio safado! – disse com o seu inconfundível sotaque bahiano.

- Maixxxxx … – tentou balbuciar o infeliz.

- Pois deixe de saliência, ôxe! Não lhe ajudo mais, seu fióte de rapariga! – arrematou, deixando o aposentado ao relento e seguindo em direção ao posto policial, onde ficava o seu paquera, o cabo Silveiras, da PM.

Não mais que cinquenta metros separavam  aquela doçura de bahiana, que havia se apaixonado por um PM casado, assim que chegou no Terminal Tietê. Ele fazia ronda na rodoviária naquele dia.

Mas não foi culpa dela.

Leleco, como era conhecido pelos amigos ou cabo Silveiras, como era lotado na PM, não usava a aliança de casamento em serviço.

- É pra proteger a minha família. – dizia ele.

Segundo Leleco, o policial é imbatível, até que descubram seus pontos fracos – e sua família era um deles.

Leleco usava bigode, como não poderia deixar de ser.

Certa vez, ficou um tempo sem ele, mas o comandante achincalhou geral quando o viu de cara pelada:

- Cabo Silveiras! – gritou o comandante do batalhão, cuspindo pão com café preto.

- Sim senhor! – respondeu olhando de lado, ainda rindo da piada que havia ouvido do cabo Freitas.

- Sentido, cabo Silveiras! – repreendeu o comandante

- Desculpe senhor! – já estava em posição de sentido.

- Na incursão de ontem, cabo Silveiras, houve alguma ocorrência fora de esquadro na diligência que o senhor e o seu companheiro impetraram no logradouro que serve a Fernão Dias, cabo Silveiras?

- Qual logradouro senhor? – perguntou já aflito e continuou:

- Fizemos inúmeras incursões em busca de entorpecentes e substâncias ilícitas na região do Jardim Brasil, Jova Rural e nos logradouros circunvizinhos, senhor! – disse.

- E cadê o elemento, cabo Silveiras?

- Cadê o meliante?

- O senhor pode ‘estar dizendo’ aonde está o autor dessa ocorrência, cabo Silveira?

- Desculpe comandante, qual ocorrência senhor? – indagou confuso e suando.

- A subtração do vosso bigode, cabo Silveiras !!! hAHhaHAHahHAHahAH …

E todo o batalhão caiu em risada.

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Olhando através de uma janela de vidro temperado, que oferecia visão ampla de dois lados do posto policial do bairro Tremembé, o cabo Silveiras que servia alí já havia algum tempo, vislumbra a silhueta de uma morena jambo, milimétricamente esculpida por muita macaxeira, rapadura e azeite de dendê; Seus cabelos cacheados dançavam ao vento, que fora produzido pela passagem de uma lotação “Tucuruvi” estranhamente andando em alta velocidade.

Atrás da lotação vinha uma moto.

Não dava pra ver, acho que era uma Twister ou uma Fazer.

Dois caras de preto com as viseiras do capacete espelhadas e um pacote na mão.

Enquanto o saco caia o carona levantava o braço.

Era encomenda pro Silveiras.

E ele recebeu.

Três tiros sem poder se defender, o vidro não era blindado.

E Eliete gritava.

E papéis voavam.

O sangue jorrava.

Na cabine da PM, o cabo que se salvou porque estava no banheiro, chama pelo rádio:

<<< PM atingido! PM atingido! Pelo amor de Deus! A ambulância! >>>

Atiraram no cabo Silveiras, mas mataram o Leleco.

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Dia treze de maio de 2006.

Jornal Nacional – “São Paulo sofre onda de violência”;

O Estado de São Paulo – “Noite de terror em São Paulo”;

Folha de São Paulo – “Bases da PM são atacadas na capital”;

O Diário de São Paulo – “Drama e sangue na madrugada paulista”;

Agora  – “Carnificina em SP – Noitada sanguinolenta”.

 

Quando acordei, lavei o rosto e sentei para tomar café, meu irmão havia deixado o jornal em cima da mesa, a legenda me chamou a atenção: “… base da PM na zona norte é atingida por vários tiros e PM é assasinado…”.

Comecei a ler a reportagem entre um gole e outro de café com leite.

Pensei um “Graças a Deus” comigo, pois umas três horas antes do acontecido, eu havia passado por alí com o meu filho, em direção à casa da minha ex-mulher.

Na verdade, esse foi o meu único sentimento, pouco me importava quem era o policial ou o assaltante, afinal, morre gente todo dia nessa cidade, se eu for me consternar por cada crime, cada morte, estaria em estado de depressão severa.

Entretanto, fiquei com uma pergunta na cabeça: Quem matou esse cara?

Não conhecia esse PM, mas de algum modo, esse crime me atingiu diretamente: acabou o pão e fui até a padaria. Havia uma fila maior do que o normal porque uma funcionária tinha faltado, e justo aquela moreninha … Como é mesmo o nome dela? … Ah … a Eliete.

Na fila, o comentário rodava à boca pequena, “Ela era a amante dele”, “Ela quase morreu junto”, “O homem era casado, foi culpa dela”. Enfim, o ser humano é um bicho triste, pra ocultar os próprios defeitos e tirar os refletores de si, fala mal da vida alheia.

Passei a mão no pão e corri de volta pra casa. Deixei o pacote com a minha velha e liguei a moto, nem dez minutos e eu já estava em Santana.

Dei uma parada numa lojinha de eletro-eletrônicos:

- Amigão, você tem Sonic para Playstation dois?

- Claro, tá na mão patrão!

- O quê ?!?

Deixei de ser patrão NA HORA em que vi o preço absurdo daquele jogo de vídeo-game; Simples, de plástico, capinha de acrílico, impressão em offset com quatro cores; A gravadora não deve ter gasto mais de trinta centavos pra fazê-lo em larga escala. Ok, tudo bem, concordo em pagar um preço justo, afinal essa é a regra do capitalismo; O empresário investiu, pesquisou, desenvolveu e agora o produto está aqui, na minha mão… MAS PAGAR MEIO SALÁRIO MÍNIMO POR UM JOGO QUE VALE TRINTA CENTAVOS?

Acredito que de nada tenha valido as centenas de milhares de reais que os empresários gastaram em desenvolvimento e sedimentação da marca, uma vez que se esqueceram do PAÍS onde puseram os pés.

A não ser que esse jogo seja direcionado aos ricos, bom, deve haver alguma advertência na capa do jogo: “Jogo inapropriado para rendas familiares menores de 600,00 reais”.

Quer saber? Que se dane o jogo original, alí na Rua Voluntários da Pátria tem um camarada que vende joguinhos – é pirata – mas deve funcionar igual.

Na barraquinha, a variedade era monstruosa. Eram três jogos por dez reais. Comprei seis.

Fui pegar a minha moto e a ROCAM – Ronda ostensiva com apoio de motocicletas – estava do lado.

- Documento da moto aí, cidadão! – se dirigia à mim.

- Opa, tá na mão!

- Aguarda afastado da motocicleta, por gentileza. – pediu o “rocam”.

Saí e fiquei esperando. O documento está em ordem, mas me dá uma agonia… Essa coisa de batida de policial é a mesma coisa que passar o cartão de débito, você sabe que tem dinheiro, mas se tá com uma menina, fica apreensivo na hora de passar.

Enquanto ele ‘puxava a capivara’ da moto, lembrei do outro PM, aquele da menina da padaria, e de novo veio a mesma pergunta: “Quem será que matou aquele cara?”.

- Por favor cidadão, me acompanha na ‘averiguage dos compartimento’ da motocicleta, ‘faisfavor’. – disse o Paul Baker, enquanto o Poncherello fazia o levantamento dos meus dados junto ao COPOM.

Acho diferente esse idioma que só os policiais falam, a estrutura é composta por frases impactantes, claramente formais, palavras novas como “averiguage”,   mas que não serviria pra despistar os marginais, como um código, pois os marginais convivem com a polícia.

- E essa bota aí? É a do Zorro? – Quis me zuar, porque eu usava um coturno, mas acho que o Zorro usava espada, se fosse o Rambo, tudo bem.

- Não senhor, uso a bota por causa da moto. – disse ainda tranquilo.

- O que o senhor ‘tá portando’ no pacote?

- São uns joguinhos pro meu filho.

Pegou os jogos e começou a olhar, um por um, abriu as capinhas, meteu o dedão no disco, colocou de volta e me devolveu.

- O senhor tem criança?

- Tenho sim, um de oito anos.

Pegou o meu documento com o outro policial e finalizou:

- Pode seguir, bom dia e vai na ‘manha’ aí. – disse o que era mais malandrão.

Depois que montei na moto, com um pouco mais de vento no rosto acabei ficando com um pouco de raiva do policial que insistia em me tirar do sério. O que aquele infeliz ganhava me deixando irritado?  - acabei lembrando daquela música do Bezerra da Silva…

 

“ … você com o revólver na mão é um bicho feroz, feroz

       Sem ele, anda rebolando e até muda de voz …”

 

Acabei criando algumas situações mentais envolvendo a pessoa daquele policial machão-feroz, no melhor estilo voodoo vibratório, a raiva passou e eu fui trabalhar.

Era dia de convenção da minha empresa – ou melhor, a empresa é de um distinto que nem sabe o meu nome – no Hotel Crowne Plaza, na rua Frei Caneca;  Parei a moto junto a uma centena delas, a maioria de motoboys, que iam e vinham dos arranha-céus do centro, e fui andando.

Na entrada do hotel, carros importados estacionados cujos espelhos retrovisores pagavam a minha moto toda.

Uma senhora, toda maquiada e bem vestida deixou cair um envelope na minha frente e me agachei para pegá-lo. Entreguei e nem um sorriso de agradecimento eu recebi. Normal com essa classe, não é?

Entrando no hotel, ouvi uma gritaria e olhei pra trás tentando ver o que acontecia.

Era a senhora caída no chão. Um trombadinha lhe roubara o mesmo envelope que segundos antes eu o havia entregado à ela.

Montado o circo, aparece a polícia, ou melhor, a ROTA, depois de uns cinco minutos com o envelope e o ‘elemento’ engaiolado nos fundos da Veraneio.

Como bom curioso, bisbilhotei pela fresta da viatura e reconheci o menino: era um moleque que vivia próximo ao meu bairro, era o irmão da Eliete.

Ela vociferava a “morosidade” dos policiais, como se ignorasse a autoridade do interlocutor, um tenente da ROTA, ou talvez não ignorasse.

Essa pergunta eu faço a você:

Quem matou aquele policial?

Ah … a propósito, aquela senhora era a diretora da Sony do Brasil, a empresa que faz o Playstation.

 

FIM

~ por cuecacuela em 9 Abril, 2009.

Uma resposta to “O Segundo Comando da Capital ?”

  1. Já pensou em escrever para peça teatral? gostei do texto. Bjs

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