Por un beso de la flaca …
Duas da madrugada, o bar seguia com alguns tantos frequentadores. Ao meu lado, só fumaça de charuto e algumas notas limpas de uma guitarra stratocaster, acho que deveria ser ano 57, pela suavidade que os acordes que chegavam aos meus ouvidos. O amplificador valvulado era acompanhado por uma banda engenhosamente afinada, tocando “La Flaca”, de um grupo espanhol, cujas sete doses de uísque que tomei me impediam de lembrar do grupo naquele momento.
Essa quantidade de álcool me dá coragem de fazer coisas que normalmente não faria se estivesse sóbrio …
- Hombre, dame una dosis más – no meu melhor espanhol borracho.
O garçom, certamente acostumado com coisas mais bizarras que esta, segurava com habilidade a garrafa de Jack Daniels, já deixando de lado o dosador, sabendo que eu iria pedir um chorinho a mais.
Na hora de receber o copo, não sabia se dispensava o guardanapo ou se olhava a garota que dançava sozinha na pista com os olhos fechados, como se estivesse sozinha no seu quarto, dançando despreocupada enquanto se veste.
Peguei o copo, como se fosse a minha companhia naquele momento, o que me deixava mais seguro, e com o guardanapo junto – odeio beber uísque com guardanapo, parece uma delicadeza desnecessária, mas tudo bem, me ocupei de outra coisa naquela hora – me levantei e saí do balcão. Segui em direção à uma mesa que havia perto da pista, puxei a cadeira e me sentei.
Talvez pela oitava dose, aquele tom âmbar da iluminação me deixava à vontade. Os acordes macios a envolviam de maneira tão ensaiada que esqueci o copo na mão, o charuto caiu e eu continuava … vendo.
Senti um toque suave no joelho e despertei daquele sonho bom.
ERA ELA !!!
- Vos dejaste caer tu habano. – disse com um inconfundível sotaque portenho.
Argentina. Ela era argentina.
- Ay Dios, perdóneme. – disse com o meu espanhol etílico.
- No te hagas problemas, y por favor, tratame de vos. – respondeu ela subindo os olhos timidamente até os meus.
Aquelas poucas palavras, que exigiam o fim de qualquer formalidade entre eu e ela me deixaram mais confuso do que já estava.
Esbarrei o braço no copo, peguei o charuto de sua mão e ajeitei os meus óculos. Esbocei um gesto de como se a tivesse convidado para se sentar ao meu lado, mas foi desnecessário. Ela mesmo puxou a cadeira que estava mais próxima e se sentou próximo a mim.
A posição da cadeira dela me incomodava. Estava mal alinhada, virada meio pra pista, meio pra mesa.
Ela falava alguma coisa, mas por causa da posição da cadeira, não sabia se ela estava falando sozinha ou se falava comigo.
Afinal, uísque por uísque, só no tempo que a vi dançando, umas cinco tequilas ela já havia tomado.
Curiosamente, a presença dela começou a me incomodar de alguma maneira. Estava tudo tão bom, ela dançando, se exibindo, e eu, olhando, imaginando …
Minha postura passiva me confortava, entretanto, com a presença dela e o contato inicial, me sinto numa obrigação incômoda de interagir com o meu sonho, que normalmente acontecem e têm final feliz sem que eu me preocupe em tomar qualquer atitude, afinal, assim são os sonhos, você vive deixando-se levar.
Delicadamente, ela se virou. Foi o suficiente para que eu recobrasse de imediato a minha lucidez:
- Con tu permiso, voy a retocar mi maquillaje. – disse com uma voz branda, devolvendo o meu estado de torpor etílico-fantasioso.
Segurando cuidadosamente a sua saia, descruzou o seu lindo par de pernas argentinamente claras e se levantou.
Ela era linda. Mesmo com a sua pouca altura, seu jeito delicado e sua maneira de andar, ela se fazia notar.
Foi em direção ao toillette como se caminhasse sobre uma linha no chão, pisando firme, um pé em frente ao outro, e desapareceu.
- Outro uísque senhor? – disse o garçom esperando a resposta positiva e quase saindo.
- Não amigo, um café e uma caneta, por favor. – pedi, já pensando em que iria escrever.
Deixando-me levar pela música que contaminava o ambiente, escrevi com a minha melhor caligrafia: “… por un beso de la flaca, yo daría lo que fuera …”, e esperei, impaciente.
Alguns minutos depois, que me pareceram eternos, vi aquela garota ainda mais linda, atravessando o bar, e se aproximando. Um músico a chama. Ela vai. Mais cinco agoniantes minutos de conversa entre ela e o dono da guitarra que agora eu odiava com todas as minhas forças.
Já distraído, busquei nos meus bolsos outro charuto e, quando ia acendê-lo, escuto uma voz que me atrapalhou todo, de novo:
- ¿Tardé mucho? – disse a porteña, com os lábios melados de gloss.
- No, para nada. – respondi mentirosamente, não conseguindo esconder a minha euforia de vê-la tão linda.
Não disse mais nada e coloquei o guardanapo – sim, aquele do uísque – sobre a mesa e o empurrei em sua direção.
Ela sorriu.
Abriu calmamente.
Leu.
E finalmente disse:
- Dale … DOSCIENTOS REALES.

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