Quem atira primeiro?

por Christian Braos

Leia com atenção os dois casos e me diga…

Caso Um

                Ana Cristina, tinha 24 anos, jovem e já formada em Administração pela PUC de São Paulo, ocupava a gerência geral de uma rede de supermercados no bairro de Santana, na zona norte da cidade.

               Por orientação da mãe, desde cedo ela aprendeu a demarcar seu território, não emprestava os seus brinquedos, gritava com as outras crianças, batia e puxava os cabelos delas quando as mães não estavam por perto, se necessário.

               Foi do tipo de menina que tirava ótimas notas na escola, nunca passou cola, trazia yakult e polenguinho e nunca dividia nada com ninguém. Fazia suas amizades por conveniência e mesmo assim vivia rodeada de meninas.

              Tinha um estojo com canetinhas de 32 cores, coleções completas de papel de carta e nunca emprestava nada, talvez para sentir o prazer de ver a derrota nos olhos das outras crianças, e ela conseguia.

               Na adolescência, aprendeu as armadilhas do amor, chegou a inventar algumas, mas sofrer – isso nunca !

              Competiu até a última instância a vaga no estágio da faculdade com uma amiga deficiente – fez até promessa – e conseguiu. Está no último ano do que prometeu, 5 anos levando uma cesta básica para uma familia carente no dia de Natal.

              E o estágio se transformou em cargo efetivado, e depois foi fácil: auxiliar administrativa, supervisora, encarregada, chefe de seção, gerente de unidade e GERENTE GERAL.

              Hoje ela vai embora mais cedo, até ela viu que “pegou pesado” com a equipe na reunião e não seria uma boa continuar ali.

              Pegou as chaves do seu Crysler Cruiser prata  e chamou o elevador social – depois de chegar ao posto de gerente ela não acha “legal” pegar o elevador de serviço.

Abriu o carro, jogou sua bolsa no banco de trás e se sentou. – Hummm, cheirinho de carro novo – ela pensou – que delícia !

              Saiu do estacionamento dando um sinal de farol alto na cara do vigia e nem lhe desejou boa noite.

 

              Desceu a rua voluntários da pátria e dobrou à direita na avenida Brás Leme, ainda ruminando a raiva dos funcionários, pôs a mão embaixo do banco e puxou a bolsa de cedês:

            -   Bruno e Marrone não, Calypso não, Leonardo não, Trash 80 não, Sandy e Junior não, ahhhhh …. este: Samba Simpatia !

             Seguiu “toda a vida” na avenida Brás Leme e na parte escura do Jardim São Bento ela freia para a travessia de uma senhora…

 Caso Dois

            Oliúde da Conceição Ribeiro, o Woody, ganhou o nome de batismo porque seu pai era aficionado pelas grandes produções cinematográficas americanas, e seu apelido veio do cowboy do desenho Toy Story, num trocadilho sonoro com o seu nome.

           

            Seu pai tinha fotos de James Dean, Sean Connery, Al Pacino, George Lucas e Charles Chaplin, por toda parte de sua casa de três cômodos, na Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo.

          

            Quando seu pai não estava bêbado, era legal. Ele trazia duas, às vezes três fitas e todos podiam assistir à sessão de cinema, com direito a pipoca e ki-suco.

          

            Só que as crises começaram a se repetir. Seu pai chegava bêbado e muitas vezes carregado, com as calças molhadas de urina, balbuciando palavras desconexas; Isso quando não chegava em pé, com energia suficiente para quebrar o que a mão alcançava, inclusive a mulher.

          

           Woody teve que encarar a creche, desde menino aprendeu a brigar pelo pão que vinha a menos das mãos do governo. Ia pra escola de manhã com o tênis que o irmão usava à tarde. E a tarde era “outros quinhentos”. Enquanto a mãe e o pai trabalhavam, ele cuidava sozinho da irmã caçula e do avô, que já estava de partida para algo melhor. E ele tinha apenas 7 anos.

           

            Aos 12 perdeu o pai numa rinha de galo, devendo no jogo, acabou saldando a dívida na ponta de um “canela seca” 38.

-  Foi tarde. – chorou Woody.

Tinha raiva do pai que morreu. Sentia a falta do pai “americano”.

Pegou ódio da cachaça. E prometeu vida nova para a mãe.

           

           Mesmo com tantas “fatalidades” e peças pregadas pela vida, Woody, agora com 24, era uma figura muito querida na “quebrada”. Sempre batia a sua bola no campo do Silvicultura, ia no samba de domingo com a namorada – uma manicure do Jardim Peri, toda gostosona . Pagava a rodada de cerveja para os “trutas” e já alisava o reco-reco. Empinava o seu “maranhão” no campinho com cinco metros de rabiola e chicote com cerol e quando se cansava de cortar a rapaziada, jogava a lata na mão de algum moleque. Era o “sortudo do dia”.

         

          No fim da tarde ele se reunia com a “diretoria” e começava a reza: seda, chave, fumo, enrola daqui, lambe dali, acende de cá, aspira de lá.

         Todo mundo loco !

         Começava então << a função >> .

         765, 380, 9 mm, 12, distribuem os números que fazem estragos inúmeros.

         É hora de agir.

         Cada um na sua moto, uma CG, uma Twister, uma Strada e uma Fireblade, para enganar a gambezada. Moto de boy. Ninguém vai suspeitar.

         E saem para meter os canos.

         

         Marginal Tietê, a gente pega a Ponte da Casa Verde, Brás Leme, Santana e já era!

Já “a milhão”, Woody e seu carona fazem  a curva da ponte e alcançam a avenida Brás Leme, ele torce os cabos do acelerador e vê do outro lado da pista uma madame num carrão com o vidro aberto, vacilando na escuridão: é agora.

         Ele faz a volta e freia, no ruído o anúncio:

         – Vai, vai, vai, a chave do carro, vai sua vadia!

        Era um Crysler Cruiser cor prata, e a moça, ao invés de entregar a chave, saca uma pistola automática.

        E AGORA? QUEM ATIRA PRIMEIRO ?

~ por cuecacuela em 10 Janeiro, 2008.

4 Respostas to “Quem atira primeiro?”

  1. Du Caralho Cribba! Mas afinal, quem atira?

  2. Que suspense final fdp hein?? façam suas apostas….

  3. Caraca Christian, muito louco esse dilema!
    E aí meu, não vai falar? ehehe.

  4. Uau. Voltei pra ler o texto. Incrível.
    Obviamente, atualmente, quem atira primeiro é a dondoca.

    Em minha humilde opinião, claro!
    Saludos!

    Rárárárárárá!

Deixe uma resposta