“Fiel até morrer”

por Christian Braos

 Virgílio Júnior passa a mão no celular e liga tremendo de alegria para a noiva, os dedos mal conseguiam achar os números corretos no aparelho, mas insistente ele consegue:

-         Amooooooor, você não sabe !!!!

-         Ganhei um carro do meu paaaaaaaaaaai ….E como se pouco interessasse a opinião da moça ele desliga sem esperar resposta e corre para a garagem no piso inferior da casa de quatro andares em Varginha, terra dos etês, no interior de Minas Gerais.

-         Meu filho, tome cuidado com este automóvel pois tratam-se de 285 cavalos de potência em oito cilindros alinhados em “V”.

Realmente, o “automóvel” como bem disse Virgílio, o pai, era uma máquina animalesca, que transbordava testosterona: bancos recaro de couro legítimo, câmbio com duplo sistema de transmissão tiptronic, dvd, cd, mp3, telas de cristal líquido no encosto dos bancos dianteiros, rodas aro 18 com pneus japoneses, 0 a 100 em alguns poucos segundos, enfim, muita tecnologia pra pouco centímetro cúbico.

Cumprindo a promessa, o pai entrega as chaves ao filho, depois de ler na internet a lista dos aprovados na Fuvest no curso de direito, um dos mais concorridos do país.

E em tempo, o chaveiro levava um animalzinho em miniatura, não era raposa, não era galo, era um gavião.

Depois de passar o dia inteiro desfilando com o brinquedo novo, entre casas de amigos, amigas, fãs e primas, finalmente ancora na casa de Yasmin, autêntica moça prendada e simples do interior mineiro, que frequenta a missa aos domingos, onde conheceu e apaixonou-se por Virgílio Júnior, ao ver na entrada da igreja aquele moço bonito com uma tatuagem no braço dizendo: “Fiel até morrer”.

-         Amoooooor ! – como ele costumava chamá-la com seu sotaque pra lá de mineiro – amanhã bem cedim eu sigo pra São Paulo, minha mãe já ajeitou os troço todo lá, vem cá um tantim

Sempre obediente, Yasmin corre até o seu quarto, se apóia na penteadeira, olha com medo para o espelho, sabendo que ia encontrar seu próprio rosto triste ali e resiste. Agarra a primeira escova que vê e ajeita rapidamente o cabelo liso e castanho, joga um suéter bege por cima dos ombros e no caminho até a sala abaixa a mirada, evitando o olhar de seu noivo. – Preciso apoiá-lo agora. Não posso ficar assim – pensou a jovem, numa confusão de sentimentos sem precedentes, não por medo dele deixá-la, afinal ele é “Fiel até morrer” …

Os dois ganham a rua.A metros de distância, Júnior aperta um botão, suficiente para se ouvir dois bípes, piscar os faróis e ver as travas das portas se levantarem, sem mesmo ter tocado os dedos no carro.

Os olhos de Junior brilhavam de orgulho, e os de Yasmin também, mas por força das lágrimas que tentavam entregá-la a todo custo.

-         Ursinho, pra você! – com a voz embargada, ela tira da bolsa de tricô um pacote pardo, enquanto ele aciona o motor da sua macchina. 

Ele pára tudo.

Deixa o carro morrer.

Esbarra na buzina.

Aciona o alarme (sem querer).

E alcança o pacote. 

É o manto sagrado: a camisa do CORINTHIANS ! 

Traindo a inconfidência mineira, Júnior, mesmo nascido e criado em Minas, se tornou um corinthiano patológicamente roxo depois de ver os seus patrícios Cruzeiro e Atlético caírem, nos anos 90, um após o outro diante da raça alvinegra em pleno Estádio Mineirão, em Belo Horizonte, com direito a shows de Marcelinho Carioca, Dinei, Rincón e cia. limitada.

Mesmo com o rebaixamento para a segunda divisão do campeonato nacional, o timão continua sendo a paixão número um de Virgílio Júnior, seguido de perto pelos carros, as garotas e o queijo. De Minas.

Lucidez recomposta, Jota Quest no som e vento no rosto …

Aquele seria o primeiro e último passeio dos dois naquele carro.

E cedim

Extrema… Camanducaia… Bragança… Atibaia… Mairiporã… São Paulo!

De Minas a São Paulo num tirim dispingarda, como dizem na terra do queijo.

Tudo ficou pra trás, amigos, parentes, Yasmin … e à frente o futuro, São Paulo, a cidade do futuro, do futuro de Virgílio Júnior.

Mal chegou em sua nova casa, no Campo Belo, próximo a casa daquela menina que matou os pais com a ajuda do namorado, Virgílio Júnior saiu.

Destino: Bom Retiro. Quadra da Gaviões da Fiel.

O cheiro do espetinho de filé-miau, a cerveja no isopor, vários carros com o capô levantado tocando o mesmo enredo – mas em trechos diferentes, cuíca, shortinho, reco-reco, mini-saia, agogô, plataforma, cavaquinho, batinha, repinique: 

<PARRRRACATACATATÁ TUMDUM !>

<PARRACATACATATÁ TATÁCATATÁ TATÁCA TATÁ TUMDUM>

(silêncio)

O repinique ataca e o bumbo responde, como se fosse uma conversa entre guerreiros na iminência da guerra, que acontece, quando o apito avisa e o restante da infantaria invade o que antes era silêncio. É de arrepiar até ao roqueiro mais metaleiro, de arrepiar.

Sentindo-se em casa, Júnior dá o real que esperava o ambulante e abre a latinha estupidamente gelada da sua cerveja preferida, seguiu na rua tomada por gente alegre e feliz, entre fuscas e vectras, nikes e havaianas, loiras e mulatas, ele se acha.

Tirou a camisa para ostentar os músculos modelados por meses de musculação e o principal: sua tatuagem; Aliás, ali era possível achar umas dez iguais, e não se sentia envergonhado por isso, como as mulheres quando vêem uma outra com o mesmo vestido, aquilo lhe fazia sentir mais forte, poderoso.

Aquele era o seu exército.

Ele pára na barraca do pernil, se apoia meio de costas, meio de lado, e pede sem olhar para a atendente, só de olho no movimento:

-   Moça, me vê um…  – e se vira para a moça. – Um …, é … um … Um queijo!

- Moço, aquí só vou estar tendo pernil, a barraca do churrasco é mais pra lá.

Ele sorri e espera. Com cara de bobo.

E continua sorrindo pra moça. Com a mesma cara de bobo.

-         Moço, cê tá bem? – se preocupou a atendente, uma morena jambo de cabelos artificialmente lisos e realmente linda.

-         Ah… é… eu? Ah, sim claro, estou esperando o meu lanche.

-         Mas moço, o senhor não pediu lanche, pediu queijo, e a barraca do churrasco não é aqui. O senhor vai ter que estar indo naquela ali !

O gerundio nunca havia soado tão lindo e adequado para Virgilinho como naquele momento. Tudo ali era lindo, até o pernil sorria.

-         Ah tá, então me vê dois …

-         Vê dois o quê, moço? Dois pernil ? – a concordância também estava linda.

-         Não, dois queijos! – e continuou hipnotizado pela morena.

-         Olha cara…

<PARRACATACATATÁ TUMDUM!>

E o estrondo da bateria pára. A música que se ouve é só aquela dos carros, e a multidão começa a se dispersar. Fim do ensaio.

-         Moço, desculpa, mas agora o movimento aumenta, o que o senhor vai estar querendo? 

Envergonhado, ele passa a mão no ombro buscando o maço de Marlboro e ensaia uma frase.

-         Eu …

-         Pois não? – a menina passa a atender a manada esfomeada.

-         Então …

-         Moço, agora espera …

-         Mas é que eu…

-         Senhora, o seu é com vinagrete ou sem?

-         Eu queria … – procurando lugar entre os concorrentes.

-         Mãe, o dela é completo!

-         Eu queria seu telefone !

A menina pega o pano já amarelado do ombro da mãe e limpa as mãos, calejadas pela rotina na quadra.

-         Tó moço, mas liga à cobrar porque tá sem crédito.

-         Não, não é o apar…. < CRAAAAASH >

Num movimento vacilante ele deixa cair o celular da morena, que se parte em três ao cair no chão.

-         Não acredito, moço !!!!!!

-         Não por favor, me perdôe, não era isso …

Ele saca do bolso um smartphone, esses que fazem de tudo, e entrega na mão dela.

-  Tó, fica com esse!

Nessa hora, um motoboy que se deleitava com o seu pernil com queijo duplo, pegou o capacete com a mão direita e foi em direção aos dois.

-         Algum poblema aí, Chalise? Esse panguão tá te zuano?

Não daria pra contar até dez, quando mais de quinze motoboys se aproximaram, tomando as dores do companheiro de profissão, que mal sabiam qual era, mas pra eles algo era certo, o julgamento é pá e a execução é pum, delivery.

Minerim, minerim, uma coisa que o mineiro sabe é fazer as coisas sem ninguém ver, e foi o que Júnior fez, sumiu na fumaça.

-         Nem me viu! – pensou ele, com o c… na mão, mas pensou.

Já no banho, dividia os pensamentos entre o tutú de feijão da mãe, os novos amigos da faculdade, o carro e a morena da quadra… Ah! claro, e Yasmin, claro, Yasmin. 

Jogou a toalha de um lado, tropeçou no tênis e chegou ao armário. Apanhou a samba canção e a regata do corinthians. Foi pro computador. Banda larga é outra coisa, em Varginha a conexão é discada. Viva São Paulo !!!

Entra no msn:

Amândio (on line)

Bia (on line) –

C@rla (on line) –  em horário de almoço

Christian (on line) – uai é uai, uai.

Gus (on line) – www.sinestesia.com.br

Hellen (on line) – ocupado

Igor (on line) – Galo até morrer.

Privisp (on line) – no creo en las brujas …

Yasmin (on line) – Amo você, Juninho =)

E as caixinhas começam a piscar …

< Carla diz:  Oi gatinho, como estão as coisas aí em São Paulo? >

< Privisp diz: E aí Juniãoooo, beleza garotoooooo! >

Tec.tec.tec.(espaço) tec.tec.teeeec.tec.tec (espaço) tec.tec.tec.tec.teeec

Virgílio Júnior começa então a responder todas as perguntas e fazer outras muitas, afinal, viver sozinho em São Paulo não é fácil, a saudade de Minas é muito grande.

< Yasmin diz: Não vai falar comigo não? >

< Juninho diz: Amooooor, desculpa, tava respondendo o povo aqui. >

< Yasmin diz: Tô sentindo tanto a tua falta. >

< Juninho diz: Ficassim não minha pura, já já eu tô aí. >

< Yasmin diz: Então, eu queria te dizer uma coisa. >

< Juninho diz: Diz, minha prenda, espera só um estantim. >

< Yasmin diz: Vou te ligar. >

< Juninho diz: Nããão meu doce, porq………. BLECAUTE EM SP.           

E Yasmin liga.           

Chalise atende.

Explica o porquê de estar com o telefone de Virgílio Júnior.

E as duas conversam, muito. E riem, muito. E Yasmin liga no outro dia, e no outro, e no outro, e não para falar com Juninho. Chalise. E passam horas conversando, não acreditando, gostando, revelando, combinando … ando.

-         Ando tentando falar com você e não consigo, Yasmin!

-         Oras, tô aqui em casa.

-         Roubaram o meu celular, vou compr….

-         Percebi, percebi.

-         Olha Virgílio, vou ter que “estar desligando”, porque tô com visita e o pernil vai queimar no forno.

-         Mas prenda minha …

-         Depois te ligo, beijo Juninho!

Tú… tú… tú… tú…

Yasmin pede desculpa para visita vinda de São Paulo e solta sem querer …

Fiel até morrer … Vai ver se eu tô na esquina !

~ por cuecacuela em 9 Janeiro, 2008.

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