Dois comprimidos.
por Christian Braos
O ônibus já ganhava a avenida 9 de julho quando ele buscou na sua mochila um analgésico para a dor de cabeça, que se apresentava militarmente às sete da noite, junto aos desodorantes vencidos que brigavam entre si para expulsar o ar que já era raro no coletivo àquela altura.
Se deu conta depois de alguns segundos de busca entre restos de papéis e canetas sem tampa, que havia dado os dois últimos que tinha para a estagiária nova, apesar de saber que ia fatalmente precisar de um deles no fim do dia, acabou dando os dois.
Mas porque os dois ?
A moça sofre de problemas de saúde crônicos e por isso não pode custear o seu próprio socorro ? Porque o pobre diabo tem um olho de vidro e todos zombam da infeliz criatura ? Não, não e não adianta criar saídas honrosas para o seu ato de bom samaritano, porque não foi, você deu os comprimidos para ela porque ela é gostosa, ahhh … muito gostosa.
- Olhe moça, só tenho dois.
- Tá ótimo Joilson, brigada!
… a dor está piorando, mas vai passar, ah vai.
O que não podia passar era a chance de se aproximar daquela beldade que chegou ao escritório indicada pelo secretário de obras, que era “filha de um fazendeiro muito rico de Araras” e que ia se formar na universidade de São Paulo e por isso merecia um posto à sua altura, em um dos melhores escritórios de contabilidade da cidade.
Ela agradeceu com um sorisso e olhou de soslaio quando se virou para ir à copa para verter os comprimidos em um gole só. Joilson sentiu um calor estranho, como se fosse vergonha e poder, queria sentir isso de novo.
O ônibus parou bruscamente, alí na altura da Praça da Sé, não na parada, e sim porque um motoboy havia sido dividido em dois por um daqueles ônibus bi-articulados. Ele ficou bem feio, e essa feiúra pintada com sangue e garôa no meio da paisagem paulista trouxe Joilson de volta à realidade. O metrô Anhangabaú se aproximava.
Nessa hora ele só pensava em ficar perto da porta…
- …censa .
- … censinha.
- opa.
- desculpe.
- posso?
- …brigad…
O físico que disse que “dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço” seguramente não tomou ônibus em São Paulo, seguramente.
Entre corpos suados e malcheirosos, ele ainda conseguia se divertir, entre quadris e pernas, ele sempre conseguia se encaixar em algo por um minuto ou dois, suficiente para não se sentir só, alí. Para evitar as caras feias, o olhar esquizofrênico para o além, atravessando o nada.
As portas abriram e ele se foi …
- Inferno, perdi o meu bilhete único (…) , ah que se dane esse bilhete, ela falou comigo e amanhã tem mais serviço !
Joilson parou na farmácia e comprou cinco caixas de analgésicos, uma de cada marca, comprou até uma importada – pra impressionar. Seguiu pra casa e esqueceu o troco com o caixa.
- Amanhã ela vai estar com mais dor de cabeça e eu vou ter todos os remédios que ela precisa. – pensou aliviado
< TOCA O CELULAR – MENSAGEM DE TEXTO >
“Jô, brigada por ter aliviado a minha tensão hoje, você tem direito a realizar um desejo por isso. Beijos, Malú.”
Nesse exato momento, algumas partes do seu corpo pareciam adquirir vida própria, como se não dependessem mais dele para se manifestar, as mãos tremiam e suavam, as pernas bambeavam e … enfim, o coração parecia que ia sair pela boca.
Chegou em casa e foi para o banho. Deixou a tevê ligada para sentir-se acompanhado enquanto revisava os tubos de Colorama já com o corpo molhado.
- Ô diacho, fui na farmácia e esqueci o raio do xampú. – esbravejou
Ensaboôu o corpo e a cabeça com sabonete mesmo, mesmo sabendo que amanhã teria problemas com a caspa. Toca o telefone. Não faz mal, a secretária eletrônica que ele comprou do chinês por dez pratas vai atender:
< Você ligou pro Joilson, no momento não posso atender, deixe o seu recado depois do bípe …. bííííííííííííípe >
- “Alô Joilson, é Clarival, amanhã não haverá expediente. Faleceu uma funcionária, vá direto ao cemitério da Consolação que estaremos todos lá, abraço …”
O som da voz de Clarival foi sumindo, a vista foi escurecendo e as pernas bambearam de novo. Seria ela?
Oito da manhã e a chuva já castigava a cidade, coberto por um plástico de supermercado ele chega ao velório e busca algum olhar conhecido. Na aflição todos os olhares são conhecidos, ou parecidos. De repente … um, dois, quatro, vários funcionários reunidos e ela não estava lá. Apertou o passo como se fosse possível mudar o que já estava feito, e estava … feito.
Era ela no caixão.
- Mas não pode ser !
- Ela ainda me deve um desejo ! – pensou quase gritando.
Uma dor lancinante e insuportável tomou conta da cabeça de Joilson, que se apoiou sobre os cotovelos.
- Um comprimido ?
Ele olha pra cima e vê a secretária do chefe.
- A senhorita teria dois?
- Me chame de você … vem cá que eu tenho mais …
A dor de cabeça passou na hora, e nem precisou do remédio.
Desejo antendido.

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