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Check In.

por Christian Braos 

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-          Isso é uma palhaçada !

-          … mas senhora …

-          Eu vou formalizar a reclamação no balcão da Infraero!

-          … é que …

< DING DONG>

< Senhores passageiros, devido ao mal tempo e às condições desfavoráveis, o aeroporto de Congonhas está temporariamente fechado para decolagens. Sugerimos o traslado ao aeroporto internacional de Guarulhos ou aguardem até o retorno de nossas operações. Muito obrigado! >

E mais um rebuliço se planta no expediente notoriamente conturbado do aeroporto mais movimentado do Brasil: Congonhas.

O vai e vem de moças com penteados em coque impecáveis e saltos brilhantes, com suas maletas andando como em marcha ensaiada atrás de seus comandantes parece não impressionar mais, não tanto assim.

Parece que tudo mudou, mas nem tudo. A multidão que invadiu os aeroportos traz consigo a soberbia e o pedantismo dos ricos que voavam nos anos 50, como se estupidez fosse prerrogativa dada aos que tem dinheiro.

-          Dinheiro não é poblema. – disse Semival, pedreiro aposentado que acabara de perder o vôo para Rio Branco, no Acre, onde ia pagar seu vizinho, agiota e grileiro de terras, que havia jurado que só aliviaria a dívida de Semival com dinheiro ou no dia de sua morte.

-          Não quero, Jonas Jorge ! Não vou dividir o táxi com ninguém, que inferno !

-           Ele chamou o táxi mas eu abri a porta primeiro !  - gritou Jully Palhares, mulher do famoso promotor de justiça J.J. Palhares, figuras que perderam o vôo para Nova Iorque, onde passarão as merecidas férias (ou recesso) do judiciário brasileiro.

Jonas Jorge, ou apenas J.J. tentou dissuadir a mulher da idéia de roubar o táxi do pedreiro, que ainda assim os convidava amavelmente para dividir a corrida, afinal ficaria uns quarenta reais mais barato até Cumbica.

Semival, veio pra São Paulo nas reticências deixadas em Serra Pelada nos anos 70, fugindo da grilagem das terras do Acre, com as pepitas que lhe restavam conseguiu vaga em um cortiço no Brás e ali ficou por uns tempos, comendo muito arroz-com-pedra ele ergueu seu teto em Itapecerica da Serra e comprou a “Sabrina”, seu chevette 91, com o adesivo “é velho, mais (sic) tá pago”.

E a chuva aperta…

-          Sweet heart, vamos aceitar a proposta do cidadão, afinal foi ele quem chamou o táxi !

E o motor do táxi Chevrolet Zafira em movimento…

-          Que se dane esse fulano, deixa ele aí e vamos, senão vamos perder o vôo de Cumbica também. Meu Deus, meu scarpin está todo ensopado, mer….

E a ventoinha dispara…

-          Não se avexe minha senhora, pode ficar com o táxi. Eu espero o próximo, afinal Rio Branco não vai sair do lugar.

E o limpador de pára-brisas funciona frenético …

-          Vai, sai daí então que eu quero entrar ! Que saco !

Com a paciência de Jó, Semival recolheu seus pertences no porta-malas do Chevrolet e escondeu um pacote negro na virilha. Eram os 40 mil reais que ele devia no Acre, mas de metade eram os juros dos anos correntes em São Paulo.

Fechou a porta com uma das mãos e acenou com a cabeça um “obrigado” ao casal judicial que ficava cada vez mais longe …

E ele bate a mão no bolso …

E a carteira dele caiu no carro …

E um Airbus A320 vindo de Porto Alegre avisa a torre de comando:

< o freio não funciona …>

< o reverso também não … >

E ele grita para o táxi …

E um avião gigantesco atravessa os limítes da pista de Congonhas …

E a chuva castiga …

E Semival pára de correr …

E toneladas de aço e sangue caem em cima do Chevrolet Zafira …

E um clarão precede a notícia:

-          “ Alguns nomes já foram divulgados, são eles: Claudio Santana, Maria do Vale, Jully Palhares, Semival Inocêncio, Jonas ….

E no Acre todos assistem …

E lá, alguém não lamenta as mortes, mas perdôa uma dívida …

E Semival …. Ahhh Semi … ops, calado. Aqui não tem nenhum Semival !

~ de cuecacuela em 8 Janeiro, 2008.

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