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Quem atira primeiro?

por Christian Braos

Leia com atenção os dois casos e me diga…

Caso Um

                Ana Cristina, tinha 24 anos, jovem e já formada em Administração pela PUC de São Paulo, ocupava a gerência geral de uma rede de supermercados no bairro de Santana, na zona norte da cidade.

               Por orientação da mãe, desde cedo ela aprendeu a demarcar seu território, não emprestava os seus brinquedos, gritava com as outras crianças, batia e puxava os cabelos delas quando as mães não estavam por perto, se necessário.

               Foi do tipo de menina que tirava ótimas notas na escola, nunca passou cola, trazia yakult e polenguinho e nunca dividia nada com ninguém. Fazia suas amizades por conveniência e mesmo assim vivia rodeada de meninas.

              Tinha um estojo com canetinhas de 32 cores, coleções completas de papel de carta e nunca emprestava nada, talvez para sentir o prazer de ver a derrota nos olhos das outras crianças, e ela conseguia.

               Na adolescência, aprendeu as armadilhas do amor, chegou a inventar algumas, mas sofrer – isso nunca !

              Competiu até a última instância a vaga no estágio da faculdade com uma amiga deficiente – fez até promessa – e conseguiu. Está no último ano do que prometeu, 5 anos levando uma cesta básica para uma familia carente no dia de Natal.

              E o estágio se transformou em cargo efetivado, e depois foi fácil: auxiliar administrativa, supervisora, encarregada, chefe de seção, gerente de unidade e GERENTE GERAL.

              Hoje ela vai embora mais cedo, até ela viu que “pegou pesado” com a equipe na reunião e não seria uma boa continuar ali.

              Pegou as chaves do seu Crysler Cruiser prata  e chamou o elevador social – depois de chegar ao posto de gerente ela não acha “legal” pegar o elevador de serviço.

Abriu o carro, jogou sua bolsa no banco de trás e se sentou. – Hummm, cheirinho de carro novo – ela pensou – que delícia !

              Saiu do estacionamento dando um sinal de farol alto na cara do vigia e nem lhe desejou boa noite.

 

              Desceu a rua voluntários da pátria e dobrou à direita na avenida Brás Leme, ainda ruminando a raiva dos funcionários, pôs a mão embaixo do banco e puxou a bolsa de cedês:

            -   Bruno e Marrone não, Calypso não, Leonardo não, Trash 80 não, Sandy e Junior não, ahhhhh …. este: Samba Simpatia !

             Seguiu “toda a vida” na avenida Brás Leme e na parte escura do Jardim São Bento ela freia para a travessia de uma senhora…

 Caso Dois

            Oliúde da Conceição Ribeiro, o Woody, ganhou o nome de batismo porque seu pai era aficionado pelas grandes produções cinematográficas americanas, e seu apelido veio do cowboy do desenho Toy Story, num trocadilho sonoro com o seu nome.

           

            Seu pai tinha fotos de James Dean, Sean Connery, Al Pacino, George Lucas e Charles Chaplin, por toda parte de sua casa de três cômodos, na Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo.

          

            Quando seu pai não estava bêbado, era legal. Ele trazia duas, às vezes três fitas e todos podiam assistir à sessão de cinema, com direito a pipoca e ki-suco.

          

            Só que as crises começaram a se repetir. Seu pai chegava bêbado e muitas vezes carregado, com as calças molhadas de urina, balbuciando palavras desconexas; Isso quando não chegava em pé, com energia suficiente para quebrar o que a mão alcançava, inclusive a mulher.

          

           Woody teve que encarar a creche, desde menino aprendeu a brigar pelo pão que vinha a menos das mãos do governo. Ia pra escola de manhã com o tênis que o irmão usava à tarde. E a tarde era “outros quinhentos”. Enquanto a mãe e o pai trabalhavam, ele cuidava sozinho da irmã caçula e do avô, que já estava de partida para algo melhor. E ele tinha apenas 7 anos.

           

            Aos 12 perdeu o pai numa rinha de galo, devendo no jogo, acabou saldando a dívida na ponta de um “canela seca” 38.

-  Foi tarde. – chorou Woody.

Tinha raiva do pai que morreu. Sentia a falta do pai “americano”.

Pegou ódio da cachaça. E prometeu vida nova para a mãe.

           

           Mesmo com tantas “fatalidades” e peças pregadas pela vida, Woody, agora com 24, era uma figura muito querida na “quebrada”. Sempre batia a sua bola no campo do Silvicultura, ia no samba de domingo com a namorada - uma manicure do Jardim Peri, toda gostosona . Pagava a rodada de cerveja para os “trutas” e já alisava o reco-reco. Empinava o seu “maranhão” no campinho com cinco metros de rabiola e chicote com cerol e quando se cansava de cortar a rapaziada, jogava a lata na mão de algum moleque. Era o “sortudo do dia”.

         

          No fim da tarde ele se reunia com a “diretoria” e começava a reza: seda, chave, fumo, enrola daqui, lambe dali, acende de cá, aspira de lá.

         Todo mundo loco !

         Começava então << a função >> .

         765, 380, 9 mm, 12, distribuem os números que fazem estragos inúmeros.

         É hora de agir.

         Cada um na sua moto, uma CG, uma Twister, uma Strada e uma Fireblade, para enganar a gambezada. Moto de boy. Ninguém vai suspeitar.

         E saem para meter os canos.

         

         Marginal Tietê, a gente pega a Ponte da Casa Verde, Brás Leme, Santana e já era!

Já “a milhão”, Woody e seu carona fazem  a curva da ponte e alcançam a avenida Brás Leme, ele torce os cabos do acelerador e vê do outro lado da pista uma madame num carrão com o vidro aberto, vacilando na escuridão: é agora.

         Ele faz a volta e freia, no ruído o anúncio:

         - Vai, vai, vai, a chave do carro, vai sua vadia!

        Era um Crysler Cruiser cor prata, e a moça, ao invés de entregar a chave, saca uma pistola automática.

        E AGORA? QUEM ATIRA PRIMEIRO ?

“Fiel até morrer”

por Christian Braos

 Virgílio Júnior passa a mão no celular e liga tremendo de alegria para a noiva, os dedos mal conseguiam achar os números corretos no aparelho, mas insistente ele consegue:

-         Amooooooor, você não sabe !!!!

-         Ganhei um carro do meu paaaaaaaaaaai ….E como se pouco interessasse a opinião da moça ele desliga sem esperar resposta e corre para a garagem no piso inferior da casa de quatro andares em Varginha, terra dos etês, no interior de Minas Gerais.

-         Meu filho, tome cuidado com este automóvel pois tratam-se de 285 cavalos de potência em oito cilindros alinhados em “V”.

Realmente, o “automóvel” como bem disse Virgílio, o pai, era uma máquina animalesca, que transbordava testosterona: bancos recaro de couro legítimo, câmbio com duplo sistema de transmissão tiptronic, dvd, cd, mp3, telas de cristal líquido no encosto dos bancos dianteiros, rodas aro 18 com pneus japoneses, 0 a 100 em alguns poucos segundos, enfim, muita tecnologia pra pouco centímetro cúbico.

Cumprindo a promessa, o pai entrega as chaves ao filho, depois de ler na internet a lista dos aprovados na Fuvest no curso de direito, um dos mais concorridos do país.

E em tempo, o chaveiro levava um animalzinho em miniatura, não era raposa, não era galo, era um gavião.

Depois de passar o dia inteiro desfilando com o brinquedo novo, entre casas de amigos, amigas, fãs e primas, finalmente ancora na casa de Yasmin, autêntica moça prendada e simples do interior mineiro, que frequenta a missa aos domingos, onde conheceu e apaixonou-se por Virgílio Júnior, ao ver na entrada da igreja aquele moço bonito com uma tatuagem no braço dizendo: “Fiel até morrer”.

-         Amoooooor ! – como ele costumava chamá-la com seu sotaque pra lá de mineiro – amanhã bem cedim eu sigo pra São Paulo, minha mãe já ajeitou os troço todo lá, vem cá um tantim

Sempre obediente, Yasmin corre até o seu quarto, se apóia na penteadeira, olha com medo para o espelho, sabendo que ia encontrar seu próprio rosto triste ali e resiste. Agarra a primeira escova que vê e ajeita rapidamente o cabelo liso e castanho, joga um suéter bege por cima dos ombros e no caminho até a sala abaixa a mirada, evitando o olhar de seu noivo. – Preciso apoiá-lo agora. Não posso ficar assim – pensou a jovem, numa confusão de sentimentos sem precedentes, não por medo dele deixá-la, afinal ele é “Fiel até morrer” …

Os dois ganham a rua.A metros de distância, Júnior aperta um botão, suficiente para se ouvir dois bípes, piscar os faróis e ver as travas das portas se levantarem, sem mesmo ter tocado os dedos no carro.

Os olhos de Junior brilhavam de orgulho, e os de Yasmin também, mas por força das lágrimas que tentavam entregá-la a todo custo.

-         Ursinho, pra você! – com a voz embargada, ela tira da bolsa de tricô um pacote pardo, enquanto ele aciona o motor da sua macchina. 

Ele pára tudo.

Deixa o carro morrer.

Esbarra na buzina.

Aciona o alarme (sem querer).

E alcança o pacote. 

É o manto sagrado: a camisa do CORINTHIANS ! 

Traindo a inconfidência mineira, Júnior, mesmo nascido e criado em Minas, se tornou um corinthiano patológicamente roxo depois de ver os seus patrícios Cruzeiro e Atlético caírem, nos anos 90, um após o outro diante da raça alvinegra em pleno Estádio Mineirão, em Belo Horizonte, com direito a shows de Marcelinho Carioca, Dinei, Rincón e cia. limitada.

Mesmo com o rebaixamento para a segunda divisão do campeonato nacional, o timão continua sendo a paixão número um de Virgílio Júnior, seguido de perto pelos carros, as garotas e o queijo. De Minas.

Lucidez recomposta, Jota Quest no som e vento no rosto …

Aquele seria o primeiro e último passeio dos dois naquele carro.

E cedim

Extrema… Camanducaia… Bragança… Atibaia… Mairiporã… São Paulo!

De Minas a São Paulo num tirim dispingarda, como dizem na terra do queijo.

Tudo ficou pra trás, amigos, parentes, Yasmin … e à frente o futuro, São Paulo, a cidade do futuro, do futuro de Virgílio Júnior.

Mal chegou em sua nova casa, no Campo Belo, próximo a casa daquela menina que matou os pais com a ajuda do namorado, Virgílio Júnior saiu.

Destino: Bom Retiro. Quadra da Gaviões da Fiel.

O cheiro do espetinho de filé-miau, a cerveja no isopor, vários carros com o capô levantado tocando o mesmo enredo - mas em trechos diferentes, cuíca, shortinho, reco-reco, mini-saia, agogô, plataforma, cavaquinho, batinha, repinique: 

<PARRRRACATACATATÁ TUMDUM !>

<PARRACATACATATÁ TATÁCATATÁ TATÁCA TATÁ TUMDUM>

(silêncio)

O repinique ataca e o bumbo responde, como se fosse uma conversa entre guerreiros na iminência da guerra, que acontece, quando o apito avisa e o restante da infantaria invade o que antes era silêncio. É de arrepiar até ao roqueiro mais metaleiro, de arrepiar.

Sentindo-se em casa, Júnior dá o real que esperava o ambulante e abre a latinha estupidamente gelada da sua cerveja preferida, seguiu na rua tomada por gente alegre e feliz, entre fuscas e vectras, nikes e havaianas, loiras e mulatas, ele se acha.

Tirou a camisa para ostentar os músculos modelados por meses de musculação e o principal: sua tatuagem; Aliás, ali era possível achar umas dez iguais, e não se sentia envergonhado por isso, como as mulheres quando vêem uma outra com o mesmo vestido, aquilo lhe fazia sentir mais forte, poderoso.

Aquele era o seu exército.

Ele pára na barraca do pernil, se apoia meio de costas, meio de lado, e pede sem olhar para a atendente, só de olho no movimento:

-   Moça, me vê um…  – e se vira para a moça. – Um …, é … um … Um queijo!

- Moço, aquí só vou estar tendo pernil, a barraca do churrasco é mais pra lá.

Ele sorri e espera. Com cara de bobo.

E continua sorrindo pra moça. Com a mesma cara de bobo.

-         Moço, cê tá bem? – se preocupou a atendente, uma morena jambo de cabelos artificialmente lisos e realmente linda.

-         Ah… é… eu? Ah, sim claro, estou esperando o meu lanche.

-         Mas moço, o senhor não pediu lanche, pediu queijo, e a barraca do churrasco não é aqui. O senhor vai ter que estar indo naquela ali !

O gerundio nunca havia soado tão lindo e adequado para Virgilinho como naquele momento. Tudo ali era lindo, até o pernil sorria.

-         Ah tá, então me vê dois …

-         Vê dois o quê, moço? Dois pernil ? – a concordância também estava linda.

-         Não, dois queijos! – e continuou hipnotizado pela morena.

-         Olha cara…

<PARRACATACATATÁ TUMDUM!>

E o estrondo da bateria pára. A música que se ouve é só aquela dos carros, e a multidão começa a se dispersar. Fim do ensaio.

-         Moço, desculpa, mas agora o movimento aumenta, o que o senhor vai estar querendo? 

Envergonhado, ele passa a mão no ombro buscando o maço de Marlboro e ensaia uma frase.

-         Eu …

-         Pois não? – a menina passa a atender a manada esfomeada.

-         Então …

-         Moço, agora espera …

-         Mas é que eu…

-         Senhora, o seu é com vinagrete ou sem?

-         Eu queria … – procurando lugar entre os concorrentes.

-         Mãe, o dela é completo!

-         Eu queria seu telefone !

A menina pega o pano já amarelado do ombro da mãe e limpa as mãos, calejadas pela rotina na quadra.

-         Tó moço, mas liga à cobrar porque tá sem crédito.

-         Não, não é o apar…. < CRAAAAASH >

Num movimento vacilante ele deixa cair o celular da morena, que se parte em três ao cair no chão.

-         Não acredito, moço !!!!!!

-         Não por favor, me perdôe, não era isso …

Ele saca do bolso um smartphone, esses que fazem de tudo, e entrega na mão dela.

-  Tó, fica com esse!

Nessa hora, um motoboy que se deleitava com o seu pernil com queijo duplo, pegou o capacete com a mão direita e foi em direção aos dois.

-         Algum poblema aí, Chalise? Esse panguão tá te zuano?

Não daria pra contar até dez, quando mais de quinze motoboys se aproximaram, tomando as dores do companheiro de profissão, que mal sabiam qual era, mas pra eles algo era certo, o julgamento é pá e a execução é pum, delivery.

Minerim, minerim, uma coisa que o mineiro sabe é fazer as coisas sem ninguém ver, e foi o que Júnior fez, sumiu na fumaça.

-         Nem me viu! – pensou ele, com o c… na mão, mas pensou.

Já no banho, dividia os pensamentos entre o tutú de feijão da mãe, os novos amigos da faculdade, o carro e a morena da quadra… Ah! claro, e Yasmin, claro, Yasmin. 

Jogou a toalha de um lado, tropeçou no tênis e chegou ao armário. Apanhou a samba canção e a regata do corinthians. Foi pro computador. Banda larga é outra coisa, em Varginha a conexão é discada. Viva São Paulo !!!

Entra no msn:

Amândio (on line)

Bia (on line) -

C@rla (on line) –  em horário de almoço

Christian (on line) – uai é uai, uai.

Gus (on line) – www.sinestesia.com.br

Hellen (on line) - ocupado

Igor (on line) – Galo até morrer.

Privisp (on line) – no creo en las brujas …

Yasmin (on line) – Amo você, Juninho =)

E as caixinhas começam a piscar …

< Carla diz:  Oi gatinho, como estão as coisas aí em São Paulo? >

< Privisp diz: E aí Juniãoooo, beleza garotoooooo! >

Tec.tec.tec.(espaço) tec.tec.teeeec.tec.tec (espaço) tec.tec.tec.tec.teeec

Virgílio Júnior começa então a responder todas as perguntas e fazer outras muitas, afinal, viver sozinho em São Paulo não é fácil, a saudade de Minas é muito grande.

< Yasmin diz: Não vai falar comigo não? >

< Juninho diz: Amooooor, desculpa, tava respondendo o povo aqui. >

< Yasmin diz: Tô sentindo tanto a tua falta. >

< Juninho diz: Ficassim não minha pura, já já eu tô aí. >

< Yasmin diz: Então, eu queria te dizer uma coisa. >

< Juninho diz: Diz, minha prenda, espera só um estantim. >

< Yasmin diz: Vou te ligar. >

< Juninho diz: Nããão meu doce, porq………. BLECAUTE EM SP.           

E Yasmin liga.           

Chalise atende.

Explica o porquê de estar com o telefone de Virgílio Júnior.

E as duas conversam, muito. E riem, muito. E Yasmin liga no outro dia, e no outro, e no outro, e não para falar com Juninho. Chalise. E passam horas conversando, não acreditando, gostando, revelando, combinando … ando.

-         Ando tentando falar com você e não consigo, Yasmin!

-         Oras, tô aqui em casa.

-         Roubaram o meu celular, vou compr….

-         Percebi, percebi.

-         Olha Virgílio, vou ter que “estar desligando”, porque tô com visita e o pernil vai queimar no forno.

-         Mas prenda minha …

-         Depois te ligo, beijo Juninho!

Tú… tú… tú… tú…

Yasmin pede desculpa para visita vinda de São Paulo e solta sem querer …

Fiel até morrer … Vai ver se eu tô na esquina !

Check In.

por Christian Braos 

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-          Isso é uma palhaçada !

-          … mas senhora …

-          Eu vou formalizar a reclamação no balcão da Infraero!

-          … é que …

< DING DONG>

< Senhores passageiros, devido ao mal tempo e às condições desfavoráveis, o aeroporto de Congonhas está temporariamente fechado para decolagens. Sugerimos o traslado ao aeroporto internacional de Guarulhos ou aguardem até o retorno de nossas operações. Muito obrigado! >

E mais um rebuliço se planta no expediente notoriamente conturbado do aeroporto mais movimentado do Brasil: Congonhas.

O vai e vem de moças com penteados em coque impecáveis e saltos brilhantes, com suas maletas andando como em marcha ensaiada atrás de seus comandantes parece não impressionar mais, não tanto assim.

Parece que tudo mudou, mas nem tudo. A multidão que invadiu os aeroportos traz consigo a soberbia e o pedantismo dos ricos que voavam nos anos 50, como se estupidez fosse prerrogativa dada aos que tem dinheiro.

-          Dinheiro não é poblema. – disse Semival, pedreiro aposentado que acabara de perder o vôo para Rio Branco, no Acre, onde ia pagar seu vizinho, agiota e grileiro de terras, que havia jurado que só aliviaria a dívida de Semival com dinheiro ou no dia de sua morte.

-          Não quero, Jonas Jorge ! Não vou dividir o táxi com ninguém, que inferno !

-           Ele chamou o táxi mas eu abri a porta primeiro !  - gritou Jully Palhares, mulher do famoso promotor de justiça J.J. Palhares, figuras que perderam o vôo para Nova Iorque, onde passarão as merecidas férias (ou recesso) do judiciário brasileiro.

Jonas Jorge, ou apenas J.J. tentou dissuadir a mulher da idéia de roubar o táxi do pedreiro, que ainda assim os convidava amavelmente para dividir a corrida, afinal ficaria uns quarenta reais mais barato até Cumbica.

Semival, veio pra São Paulo nas reticências deixadas em Serra Pelada nos anos 70, fugindo da grilagem das terras do Acre, com as pepitas que lhe restavam conseguiu vaga em um cortiço no Brás e ali ficou por uns tempos, comendo muito arroz-com-pedra ele ergueu seu teto em Itapecerica da Serra e comprou a “Sabrina”, seu chevette 91, com o adesivo “é velho, mais (sic) tá pago”.

E a chuva aperta…

-          Sweet heart, vamos aceitar a proposta do cidadão, afinal foi ele quem chamou o táxi !

E o motor do táxi Chevrolet Zafira em movimento…

-          Que se dane esse fulano, deixa ele aí e vamos, senão vamos perder o vôo de Cumbica também. Meu Deus, meu scarpin está todo ensopado, mer….

E a ventoinha dispara…

-          Não se avexe minha senhora, pode ficar com o táxi. Eu espero o próximo, afinal Rio Branco não vai sair do lugar.

E o limpador de pára-brisas funciona frenético …

-          Vai, sai daí então que eu quero entrar ! Que saco !

Com a paciência de Jó, Semival recolheu seus pertences no porta-malas do Chevrolet e escondeu um pacote negro na virilha. Eram os 40 mil reais que ele devia no Acre, mas de metade eram os juros dos anos correntes em São Paulo.

Fechou a porta com uma das mãos e acenou com a cabeça um “obrigado” ao casal judicial que ficava cada vez mais longe …

E ele bate a mão no bolso …

E a carteira dele caiu no carro …

E um Airbus A320 vindo de Porto Alegre avisa a torre de comando:

< o freio não funciona …>

< o reverso também não … >

E ele grita para o táxi …

E um avião gigantesco atravessa os limítes da pista de Congonhas …

E a chuva castiga …

E Semival pára de correr …

E toneladas de aço e sangue caem em cima do Chevrolet Zafira …

E um clarão precede a notícia:

-          “ Alguns nomes já foram divulgados, são eles: Claudio Santana, Maria do Vale, Jully Palhares, Semival Inocêncio, Jonas ….

E no Acre todos assistem …

E lá, alguém não lamenta as mortes, mas perdôa uma dívida …

E Semival …. Ahhh Semi … ops, calado. Aqui não tem nenhum Semival !

Em 1973.

por Douglas Braga. 

Em 1973, o ano em que nasci, já estava condenado a viver nesta prisão que nós mais novos chamamos de lar. Por isso, eu não entendia muito, e não podia nem pensar em me intrometer, a conversa dos mais velhos sobre liberdade e justiça e sobre o tempo em que eles tinham vastos pedaços de terra e criavam cabras no sopé das montanhas. Você pode até pensar, mas se você não conheceu estes tempos como pode então sentir saudade? Mas num determinado momento, onde descobri que tudo o que eu conhecia era uma grande farsa e que vi meus amigos e parentes morrendo injustamente, um por um, comecei a pensar que fui predestinado a ser um simples instrumento da justiça divina. Minha vida não vale nada e melhor é morrer a sucumbir a opressão. E neste caso minhas únicas armas são a pedra e meu próprio corpo. A pedra foi a causa da morte de meu melhor amigo. No inicio eu nem sabia muito bem porque atirar pedras nos tanques e soldados que por motivos que eu desconhecia eram odiados na cidade murada, para mim era apenas diversão até o dia em que um projétil atingiu fatalmente meu amigo nas costas perfurando seu pulmão, o que fez com que ele emitisse barulhos engraçados que foram se transformando em pura agonia antes dele finalmente parar de respirar. Naquele dia minha vida mudou para sempre e me levou ao que vai acontecer hoje. Minha carta já está pronta e estou gravando meu vídeo de despedida para minha mãe e minha irmã que infelizmente vão ter que prosseguir sem a minha presença, mas espero que elas tenham coragem e se orgulhem do meu esforço em nome do futuro da nossa gente. Atravessei o posto de fiscalização com uma visto restrito de trabalhador, analisado com desconfiança pelo soldado que não devia ter mais que 18 anos. Do outro lado meu contato me espera para que eu seja preparado para a ação. Há muito tempo eu espero por este dia e é uma grande honra e também motivo de apreensão para mim. Com tudo preparado, me dirijo ao centro e pela primeira vez conheço uma cidade de verdade, tudo é diferente as pessoas os prédios, já tinha visto pela TV, mas aquilo era tão distante na minha imaginação, que agora penso que estou sonhando, chegando mais e mais perto do meu objetivo final. Encontro com dificuldade o endereço combinado, um café com internet muito movimentado, lá dentro vejo uma maioria de jovens com eu e por um momento isto causa um aperto no coração parecido com o que senti no dia da morte do meu melhor amigo. Não pense que eu não tenho pena destas pessoas, mas como já disse, é minha única arma para fazer a diferença para o meu povo. Neste momento, meu corpo se inflama em puro transe e o que acontece depois é muito rápido.  

O homem de lata.

por Douglas Braga.

Quando ouvi pela primeira vez a expressão: ‘A vida dá voltas’, não imaginei que estas palavras fossem se aplicar à minha vida com tanta perfeição. Comecei fazendo trabalhos pequenos na indústria do tráfico. O dinheiro era bom e eu não achava mesmo que poderia me adaptar ao mercado de trabalho ‘convencional’, então, fazia avião dia e noite levando a droga do patrão até a mão do playboy ansioso que esperava dentro do carro com o cú na mão. Também até eu teria medo de enfiar meu carro novinho na boca com um monte de gavião pronto para dar o bote. Fui progredindo ao mesmo tempo que o patrão, e ele logo me ofereceu uma parte do negócio, desde que eu pagasse para ele uma porcentagem, é claro!  Neste negócio o segredo é ficar alerta, no momento que você abre a guarda, você roda e foi o que aconteceu comigo e o motivo era lindo: Alice! A mulher era maravilhosa e arisca do jeito que eu gosto. Eu queria casar e fui até a mãe dela já que o pai tinha morrido há alguns anos por causa da cachaça. Sua mãe me disse que para casar eu tinha que virar gente e deixar de ser bandido, eu disse para ela que entendia e que as coisas iam mudar que eu ia comprar um trailer de sanduíche natural e largar a carreira. Casamos e logo tivemos nosso primeiro filho. Lembra quando falei sobre abrir a guarda, algum filho da puta me dedurou antes mesmo de eu dar a primeira parcela no nosso trailer e eu rodei. Nem gosto de falar sobre as coisas que eu passei na cadeia, nem preciso dizer que foi foda, mexe com a cabeça de qualquer um. Ainda mais com mulher e filho lá fora… Pelo menos os cinco anos passaram rápido e agora eu só quero esquecer e ser feliz. Nada de pilantragem, vou ser homem de bem e comprar meu trailer e arrumar um lugar para minha família morar. Um ‘camarada’ me disse que vendia um barraco para mim, sem documento ou complicacão. Há se arrependimento matasse, comprei a porra do barraco e nem três meses se passaram aparece três malucos armados na minha porta reclamando o barraco, dizendo que pertencia ao mané que tava na cadeia e que se eu quisesse ficar com ele ia ter que pagar mais que o dobro do que eu já tinha pago para o meu suposto amigo. Pegamos nossas coisas e fomos morar com a mãe da Alice. Até aí sem problema o trailer tava indo bem e logo a gente podia se arrumar num lugar até melhor. Meu sanduíche é campeão e eu arrumei um ponto nervoso na frente de uma rede de TV, só bacana comendo lá eu conheci muita gente legal com grana alguns até famosos. Eu estava muito feliz e achava que mesmo com o monte de merda que tinha acontecido comigo antes eu tinha sorte na vida. Fiquei nesta por alguns anos até o pior acontecer. Eleição em São Paulo, prefeito novo na área, este cara parece legal, até votei nele e ele fudeu minha vida. De um dia para o outro baixou um povo no meu trailer dizendo que eu não tinha licença a se eu quisesse continuar a trabalhar ali ia ter que molhar a mão dos fiscais. Fiquei puto mas paguei. Só que aí as coisas começaram a piorar para minha família, não sobrava muito e para legalizar era pior ainda sem contar que os caras que eu pagava iam me zoar com certeza. Com isso minha relação com a Alice foi indo para o ralo, ela só ouvia a mãe que tinha uma visão antiquada da coisa. Minha vida tinha virado um inferno de novo. Num dia de muita fúria eu me recusei a pagar os caras e é lógico perdi tudo, no mesmo dia os caras botaram tudo em cima de um caminhão e eu comecei a me preparar para a próxima parte da minha vida. Para você pode parecer o fim, para mim foi um novo começo e com certeza uma fase de profundo auto conhecimento. Quando se está a parte da sociedade você começa a ver a coisas com mais atenção, tudo é mais claro. Eu estava tão cansado que não tinha forças mais para brigar com a minha sogra ou minha mulher. O dinheiro é realmente coisa do diabo, não importa o que você sente no coração nada disso. E isso ficou bem mais claro quando eu fui para rua ser catador de lata, você passa pelas pessoas e elas simplesmente não se importam, é como se você não existisse, é pior, para elas você não deveria existir, você é um efeito colateral do capitalismo. O que estas pessoas não sabem é que minha vida é melhor que a delas ou pelo menos mais real. Eu tenho poucos mais bons amigos, trabalho muito, mas faço meu horário; as vezes, consigo tomar umas cervejas e até comer um bifão acebolado, leio um monte e nunca aprendi tanta coisa em toda minha vida, mas o mais importante: agora eu tenho paz!   

 

Inocência Branca

por Douglas Braga

Sábado à noite, depois de uma semana difícil no trabalho, tudo o que eu quero é me divertir e esquecer cada gota de suor derramada em nome do ‘bem comum’ ou ‘progresso’, chame como quiser.  Me encontro com uns amigos para tomar uma cerveja, a recompensa cor de ambar, é como se todo aquele suor me fosse devolvido para que eu consiga suportar outra semana. É assim que a gente vê o mundo quando se é jovem e fodido. É assim com quase todo mundo neste país fodido. E é por isso que eu e meus amigos enfrentamos a ignorância mais uma vez naquele dia. Quando se vive com este nível de baixa estima parece que as pessoas precisam se apoiar em algo, seja religião, futebol, drogas, qualquer coisa ou substância que te deixe mais forte. No meu caso sempre foi a música e neste fim de semana estou eu com sorte, tem show grátis na cidade. A excitação é grande o desejo de liberar a adrenalina acumulada por todos os sapos que eu já tive que engolir e eu já bebi um monte com a minha namorada então decidimos que é hora de seguir para o concerto. Esta é a melhor parte do dia, eu adoro andar pela cidade em grupo ou sozinho, tanto faz, minha relação com as ruas é de amor e amor, já me aconteceu de tudo: ter que me esconder de gangues de delinqüentes, ter o cano de um revólver na minha cabeça, ter que dormir num caixa eletrônico, mas o mais interessante é conhecer gente e interagir com todo tipo de realidade, apesar de ser bem mais seletivo hoje em dia, tem histórias que a gente não quer viver duas vezes. Como esta que vou revelar, não era a primeira vez que eu me deparava com nacionalistas nazistas um conceito que já começa errado, já que estamos no Brasil e os caras usam o símbolo que Hitler roubou do oriente: a suástica. Eu já conheci alguns skins e na verdade eles são tão perdidos quanto qualquer outro grupo que se encaixota num tipo de música ou maneira de vestir, os punks de verdade usam roupas limpas e pagam impostos, você pode ser contra ou a favor de alguma idéia desde que ela seja sua e não fabricada por um grupo e por favor, seja um pouco mais dissimulado, um passo de cada vez. Naquele dia tudo parecia correto: show, clube, amigos, namorada, tudo além das minhas expectativas na época. Tomamos o trem e as pessoas pareciam amistosas algumas claramente esgotadas pelo meio turno do sábado, mas felizes por estarem indo para casa. Tudo parece mais calmo e sereno antes do terror, algum sentido que desconhecemos deve nos avisar para relaxar na tentativa de juntar toda força para sobreviver depois. Um grupo de mais ou menos 10 pessoas usando calças jeans, cuturnos pretos, camisetas brancas e suspensórios entrou no trem e a tensão veio com eles. Percebendo que meu grupo vestia camisetas da banda que estavamos prestes a assistir ou por qualquer outra idiotice que o valha um dos indivíduos veio em minha direção e pediu minha carteira, eu o atendi prontamente, estamos em menor número e desarmados, um outro elemento menos embriagado do grupo de cuturno o obrigou a me devolver minha carteira o que criou uma discussão entre eles. Um homem de meia idade carregando uma bolsa, aparentemente voltava do futebol, me perguntou se ele falava sério sobre roubar minha carteira, eu disse que sim e então ele cometeu um grande erro, meteu o pé no peito do skin head e foi imediatamente atacado por todo o grupo de uma vez só, aquilo foi a coisa mais primitiva e animal que eu já presenciei todos batiam e gritavam OI! em coro, o som da violência, o som do poder, uma massa impenetrável de ignorância. Fico me perguntando se não devia ter entrado no círculo para defender o estranho, mas na verdade ele não queria me ajudar ele só queria lutar pelo seu território, tão animal quanto os outros,  a diferença é que ele não soube avaliar suas chances. Minha decisão foi por quebrar o vidro de emergência do vagão o que na verdade salvou sua vida. O trem freou bruscamente o que neutralizou o grupo e fez com que eles fugissem ao ouvir um alarme que indicava ajuda chegando. Eu nunca agradeci o homem e nem nunca o vi de novo, mas é difícil esquecer seu rosto desfigurado subindo a escada rolante que descia. 

Dois comprimidos.

por Christian Braos

O ônibus já ganhava a avenida 9 de julho quando ele buscou na sua mochila um analgésico para a dor de cabeça, que se apresentava militarmente às sete da noite, junto aos desodorantes vencidos que brigavam entre si para expulsar o ar que já era raro no coletivo àquela altura.

Se deu conta depois de alguns segundos de busca entre restos de papéis e canetas sem tampa, que havia dado os dois últimos que tinha para a estagiária nova, apesar de saber que ia fatalmente precisar de um deles no fim do dia, acabou dando os dois.

Mas porque os dois ?

A moça sofre de problemas de saúde crônicos e por isso não pode custear o seu próprio socorro ? Porque o pobre diabo tem um olho de vidro e todos zombam da infeliz criatura ? Não, não e não adianta criar saídas honrosas para o seu ato de bom samaritano, porque não foi, você deu os comprimidos para ela porque ela é gostosa, ahhh … muito gostosa.

-         Olhe moça, só tenho dois.

-         Tá ótimo Joilson, brigada!

… a dor está piorando, mas vai passar, ah vai.

O que não podia passar era a chance de se aproximar daquela beldade que chegou ao escritório indicada pelo secretário de obras, que era “filha de um fazendeiro muito rico de Araras” e que ia se formar na universidade de São Paulo e por isso merecia um posto à sua altura, em um dos melhores escritórios de contabilidade da cidade.

Ela agradeceu com um sorisso e olhou de soslaio quando se virou para ir à copa para verter os comprimidos em um gole só. Joilson sentiu um calor estranho, como se fosse vergonha e poder, queria sentir isso de novo.

O ônibus parou bruscamente, alí na altura da Praça da Sé, não na parada, e sim porque um motoboy havia sido dividido em dois por um daqueles ônibus bi-articulados. Ele ficou bem feio, e essa feiúra pintada com sangue e garôa no meio da paisagem paulista trouxe Joilson de volta à realidade. O metrô Anhangabaú se aproximava.

Nessa hora ele só pensava em ficar perto da porta…

-         …censa .

-         … censinha.

-         opa.

-         desculpe.

-         posso?

-         …brigad…

O físico que disse que “dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço” seguramente não tomou ônibus em São Paulo, seguramente.

Entre corpos suados e malcheirosos, ele ainda conseguia se divertir, entre quadris e pernas, ele sempre conseguia se encaixar em algo por um minuto ou dois, suficiente para não se sentir só, alí. Para evitar as caras feias, o olhar esquizofrênico para o além, atravessando o nada.

As portas abriram e ele se foi …

-         Inferno, perdi o meu bilhete único (…) , ah que se dane esse bilhete, ela falou comigo e amanhã tem mais serviço !

Joilson parou na farmácia e comprou cinco caixas de analgésicos, uma de cada marca, comprou até uma importada – pra impressionar. Seguiu pra casa e esqueceu o troco com o caixa.

-         Amanhã ela vai estar com mais dor de cabeça e eu vou ter todos os remédios que ela precisa. – pensou aliviado

< TOCA O CELULAR – MENSAGEM DE TEXTO >

“Jô, brigada por ter aliviado a minha tensão hoje, você tem direito a realizar um desejo por isso. Beijos, Malú.”

Nesse exato momento, algumas partes do seu corpo pareciam adquirir vida própria, como se não dependessem mais dele para se manifestar, as mãos tremiam e suavam, as pernas bambeavam e … enfim, o coração parecia que ia sair pela boca.

Chegou em casa e foi para o banho. Deixou a tevê ligada para sentir-se acompanhado enquanto revisava os tubos de Colorama já com o corpo molhado.

- Ô diacho, fui na farmácia e esqueci o raio do xampú. - esbravejou

Ensaboôu o corpo e a cabeça com sabonete mesmo, mesmo sabendo que amanhã teria problemas com a caspa. Toca o telefone. Não faz mal, a secretária eletrônica que ele comprou do chinês por dez pratas vai atender:

< Você ligou pro Joilson, no momento não posso atender, deixe o seu recado depois do bípe …. bííííííííííííípe >

-         “Alô Joilson, é Clarival, amanhã não haverá expediente. Faleceu uma funcionária, vá direto ao cemitério da Consolação que estaremos todos lá, abraço …”

O som da voz de Clarival foi sumindo, a vista foi escurecendo e as pernas bambearam de novo. Seria ela?

Oito da manhã e a chuva já castigava a cidade, coberto por um plástico de supermercado ele chega ao velório e busca algum olhar conhecido. Na aflição todos os olhares são conhecidos, ou parecidos. De repente … um, dois, quatro, vários funcionários reunidos e ela não estava lá. Apertou o passo como se fosse possível mudar o que já estava feito, e estava … feito.

Era ela no caixão.

-         Mas não pode ser !

-         Ela ainda me deve um desejo ! – pensou quase gritando.

Uma dor lancinante e insuportável tomou conta da cabeça de Joilson, que se apoiou sobre os cotovelos.

-         Um comprimido ?

Ele olha pra cima e vê a secretária do chefe.

-         A senhorita teria dois?

-         Me chame de você … vem cá que eu tenho mais …

A dor de cabeça passou na hora, e nem precisou do remédio.

Desejo antendido.